Eça de Queirós

Os Maias - Episódios da Vida Romântica (1888)

Leia uma obra prima da literatura em Portugal e faça um percurso por Lisboa oferecido pelo Jornal da Praceta

 

Casa de Eça de Queirós em Tormes (Baião). Foi nesta casa que se inspirou para escrever o seu último romance -  "A Cidade e as Serras" .

 

Eça de Queirós nasceu na Póvoa do Varzim, no dia 25 de Novembro de 1845. Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra. Foi jornalista e exerceu a advocacia. Ingressou na carreira diplomática tendo servido em Havana, Newcastel, Bristol e Paris. Faleceu em Paris em 1900. Foi inicialmente sepultado no cemitério do Alto de S. João em Lisboa, sendo em 1989 trasladado para o cemitério de Santa Cruz do Douro.

 

Figura central de uma geração de notáveis escritores e artistas portugueses, na segunda metade do século XIX, a sua obra tem uma dimensão universal.

Eça em Lisboa

Após se ter formado em Direito na Universidade de Coimbra, no verão de 1866 veio para Lisboa, onde passou a viver com os seus pais na Praça D. Pedro IV, nº 26- 4º. Andar.

Tenta a advocacia, mas rapidamente desiste. A sua grande paixão era o jornalismo e a literatura.

Foi em Lisboa que iniciou a sua carreira literária com a publicação de artigos na Gazeta de Portugal, reunidos mais tarde no volume Prosas Bárbaras. O jornal tinha a sua sede na Travessa da Parreirinha (atual Rua Capelo), junto ao Teatro de S. Carlos. Envia ainda em 1866 uma tradução da peça de José Bouchardy ao Teatro D. Maria I.

Em janeiro de 1867 muda-se para Évora, para organizar e dirigir um jornal de oposição ao governo - "Districto de Évora" - , financiado por um grande latifundiário - António José de Almeida. Ainda neste ano regressa a Lisboa. Nas páginas deste jornal faz o retrato político-social mordaz de Lisboa que irá depois desenvolver nos seus romances.

Os Maias

Eça de Queirós desde que chega a Lisboa, em 1866, começa a trabalhar num retrato social, político e cultural da cidade, como microcosmos de Portugal. Nas páginas do jornal Distrito de Évora, em 1867, esta imagem aparece já definida nos seus contornos essenciais, assim como os espaços dela serão evocados.

Entre 1875, data da publicação d`O Crime do Padre Amaro e a publicação d`Os Maias (1888), são trabalhadas personagens e locais para deles fazer uma grande pintura da sociedade portuguesa ao tempo.

Eça de Queirós, em 1880, assume o compromisso de escrever Os Maias, onde pretendia reunir todo material acumulado. Dois anos depois, afirma ter já concluído o 1º. Volume, mas só em 1888, a obra será públicada na Livraria Internacional de Ernesto Chardon, o que revela a importância e o rigor literário que conferiu a esta obra.

N`Os Maias encontramos uma visão da vida e mentalidade das elites políticas, culturais e económicas da sociedade portuguesa feita por um dos seus membros.

1. Rossio

O Rossio é uma referência constante nas suas obras. O Café Nicola, o Café Martinho, a Praça da Figueira, e a ligação para norte à Avenida da Liberdade (Passeio Público) são algumas das suas referências literárias que aparecem n`Os Maias.

Teatro Nacional D. Maria II, na Praça D. Pedro IV. Eça de Quieróz quando se fixou em Lisboa, em 1866, enviou para o Teatro Nacional a tradução de uma peça de teatro, revelando desde logo ao que vinha: o jornalismo e a literatura.

Rossio

Consultório de Carlos da Maia. Ficava num 1ª.andar, numa esquina.

Praça da Figueira

O mercado foi demolido em 1949.

"(Maria Eduarda) viera indignada da Praça da Figueira, quase com ideias de vingança, por ter visto nas tendas dos galinheiros, aves e coelhos apinhados em cestos, sofrendo (...) as torturas da imobilidade e a ansiedade da fome", Os Maias

- Passeio Público/Av. da Liberdade

Avenida

A "larga avenida" - começou a ser construída em 1886, quando Eça de Queiróiz não se encontrava em Portugal.

Praça dos Restauradores / Avenida da Liberdade.

"Ora aí tens tu uma Avenida, hem?.... Já não é mau !...

Num claro espaço rasgado, onde Carlos deixara o Passeio Público, pacato e frondoso, um obelisco com borrões de bronze no pedestal erguia um traço de açúcar na vibração fina da luz.", Os Maias

2. Chiado

O Largo do Chiado é o centro do microcosmo literário de Eça de Queirós, onde numa curta distância se desenrolam muitos dos episódios marcantes de romances como Os Maias:

- Rua Garret

Palácio dos Barcelinhos (Armazéns do Chiado

No palácio dos Barcelinhos funcionou vários hotéis: o Universal (1883), o Europa e o Borges.

Café Marrare

Rua Garret, 58-60. Fechou no ano que Eça de Queiróz veio para Lisboa (1860).

- Café Marrare do Poplimento. Foi à porta do café Marrare que Pedro da Maia pede informações ao poeta Alencar sobre a bela Maria Monforte, depois de a avistar fora, no passeio fronteiro, Os Maias, cap.I

- "O Alencar correu ao café marrare, de braço no ar, a berrar a novidade. Não tardou de resto a falar-se em toda a Lisboa da paixão de Pedro da Maia pela "negreira", Os Maias

Turf Club

Clube de hipismo. Rua Garrett, 14-1º.

"- São rapazes do Turf. É um clube novo, o antigo Jockey da Travessa da Palha. Faz-se lá uma batotinha barata, tudo gente simpática... E como vês estão sempre assim preparados, com sanefas e tudo, para se acaso passar por aí o Senhor dos Passos.", Os Mais, cap.XVIII

Livraria Bertrand

«Foram descendo o Chiado. Do outro lado, os toldos das lojas estendiam no chão uma sombra forte e dentada. E Carlos reconhecia, encostados às mesmas portas, sujeitos que lá deixara havia dez anos, já assim encostados, já assim melancólicos. Tinham rugas, tinham brancas. Mas lá estacionavam ainda, apagados e murchos, rente das mesmas ombreiras, com colarinhos à moda. Depois, diante da Livraria Bertrand, Ega, rindo, tocou o braço de Carlos: 

- Olha quem ali está, à porta do Baltreschi!

Era o Dâmaso. O Dâmaso, barrigudo, nédio, mais pesado, de flor ao peito, mamando um grande charuto, e pasmaceando, com o ar regaladamente embrutecido de um ruminante farto e feliz.», Os Maias

Casa Havanesa

(inaugurada em 1865). Casa de tabacos nacionais e internacionais. Ficava mesmo na esquina (Rua Garret, 126) Remodelada em 1949, parte das suas instalações foram cedidas a um banco em 1960. No primeiro andar ficava o Hotel Aliança.

A Casa Havanesa era o ponto de encontro da políticos e da burguesia lisboeta na segunda metade do século XIX.

- Rua de S. Francisco (atual Rua Ivens)

Grémio (Rua Ivens, 37 )

"O Ega era odiado. E a pequena Lisboa que vive entre o Grémio e a Casa Havanesa folgava em "enterrar" o Ega". Os Maias, cap.IX.

Casa da Maria Eduarda

A casa foi-lhe alugada pela mãe de Cruges - Rua de S. Francisco, 31-1º. Andar

"No Cais do Sodré deixou a carruagem, subiu a pé pelo Ferragial, veio passar diante das janelas na Rua de S. Francisco. Só pode ver uma vaga tira de claridade de entre as portadas meio cerradas. Mas isso bastava-lhe. Podia agora imaginar com precisão o serão calmo que ela estava passando na larga sala de repes vermelho.", Os Maias, cap.XI

- Porta das duas Igrejas (atual Largo do Chiado, Loreto)

Igreja do Loreto ou dos italianos

- Largo de S. Carlos.

Teatro Nacional S. Carlos

Condessa de Gouvarinho e Carlos da Maia

- Rua Serpa Pinto

Hotel Universal

O hotel entre 1850 e 1883 situava-se no nº. 19 da Rua Serpa Pinto, sendo depois transferido para o Palácio dos Barcelinhos.

Restaurante Silva

«Contou o caso da Adosinda. Fora no Silva, havia duas semanas, estando ele a cear com os rapazes depois de S. Carlos, que lhe aparecera essa mulher inverosímil, vestida de vermelho, carregando insensatamente nos rr…», Os Maias

- Largo de Camões

Estátua de Camões

"estátua triste de Camões", Os Maias"

- Rua do Tesouro Velho (atual Rua António Maria Cardoso)

«Alencar e o maestro partiram, depois de se munirem de charutos. E daí a pouco Carlos e Ega seguiam também pela Rua do Tesouro Velho, de braço dado, muito lentamente.»

- Rua do Ferragial de Cima (atual Rua Vitor Cordon):

Casa dos Cohen

«E o Alencar, perante esta intimação do Cohen, o respeitado director do Banco Nacional, o marido da divina Raquel, o dono dessa hospitaleira casa da Rua do Ferregial onde se jantava tão bem, recalcou o despeito – admitiu que não deixava de haver talento e saber.», Os Maias

Braganza Hotel

«Carlos pouco se demorou em Resende. E numa luminosa e macia manhã de Janeiro de 1887, os dois amigos [Carlos e Ega], enfim juntos, almoçavam no hotel Bragança, com as duas janelas abertas para o rio.», Os Maias

2.1. Outras Direcções

Avançando para Norte temos que referir:

- Largo da Abegoaria (atual Largo Rafael Bordalo Pinheiro)

Casino Lisbonense

Ficava situado onde hoje se encontra o edificio Garret, nº 10. Foi aqui que ocorreram as célebres Conferências do Casino (1871). A conferência de Eça de Queirós ocorreu no dia 12 de Junho, e tinha o título: "A Afirmação do Realismo como Expressão da Arte".

Circulo Eça de Queirós

Fundado em 1940 tem a sua se no número 4.

Carlos da Maia, espanca o Eusebizinho por causa da noticia no "Corneta", Os Maias

«Já Carlos corria pelas escadas: Ega seguiu atrás, inquieto, temendo uma violência. Quando chegaram à porta, Eusébio metera para os lados do Carmo. E alcançaram-no no Largo da Abegoaria, àquela hora deserto, mudo, com dois bicos de gás mortiços.», Os Maias

- Teatro da Trindade. Inaugurado em 1867.

- Travessa da Trindade (Restaurante Augusto, nº.12-1º.Andar),

- Rua de S. Roque (atual Rua da Misericórdia )

Restaurante Tavares

"No Tavares, ainda solitário àquela hora, um moço areava o sobrado. E enquanto esperava o almoço, Ega percorreu os jornais. [...] Ega sorriu, cofiando o bigode. Justamente o chegava, fumegante, chiando na frigideirinha de barro. Ega pousou a Gazeta ao lado, dizendo consigo: "Não é nada malfeito, este jornal!"
O bife era excelente: - e depois dumaz fria, dum pouco de doce de, dum  forte, Ega sentiu adelgaçar-se enfim aquele negrume que desde a véspera lhe pesava na alma. [...]
O relógio do café deu dez horas. "Bem, vamos a isto", pensou Ega.",
Os Maias

- Jardim de S. Pedro de Alcantara

A Observar do Miradouro de S. Pedro de Alcantara

Vista do miradouro de S. Pedro de Alcântara, onde podemos contemplar as colinas da Penha de França, Senhora do Monte,Graça e a do Castelo. João da Ega morava na Graça, na "Vila Balzac". O percurso fez-se pela Penha de França, Cruz dos Quatro Caminhos entrando depois no bairro da Graça.

Era aqui que Ega recebia Raquel Cohen a mulher do diretor do Banco Nacional

 

- Rua de S.Marçal

Casa do Conde de Gouvarinho. A condessa foi amante de Carlos da Maria até aparecer Maria Eduarda.

"Se tu quisesses! Que felizes que seríamos! que vida adorável! ambos sós!... E isto era claro - a condessa concebera a ideia extravagante de fugir com ele, ir viver num sonho eterno de amor lírico, nalgum canto do mundo, o mais longe possível da Rua de S. Marçal! ", Os Maias

 

- Rua da Escola Politécnica. Aqui tomava o pequeno almoço quando veio para Lisboa (Pastelaria Serafina/Cister, nº107), etc.

 

- Bairro Alto

Boémia

«Gostava daquilo, do Bairro Alto, dos cafés de lepes, dos chulos...», Os Maias

Cenáculo.

Travessa do Guarda-Mor, atual Rua do Grémio Lusitano, nº.19-1º, onde morava Jaime Batalha Reis foi a primeira morada do Cenáculo. Em 1867 nas tertúlias que aqui ocorrem aparece Ramalho Ortigão, José Fontana, Oliveira Martins, Antero de Quental e outros. Grande influência de Proudhon.

O cénaculo registou depois mais três moradas: Jardim de S. Pedro de Alcantara; Rua da Cruz de Pau, nº20-2º. andar, a Santa Catarina, e Rua dos Prazeres, 63 -1º. andar.

Casa de Tomás de Alencar, poeta romântico

Rua do Carvalho(atual rua Luz Soriano)

"- Tem bom ar esta vossa casa... Pois entra tu, meu rapaz, que eu vou andando por aqui para a minha toca. E quando quiseres, filho, lá me tens na Rua do Carvalho, 52, Terceiro andar. O prédio é meu, mas eu ocupo o terceiro andar. Comecei por habitar no primeiro, mas tenho ido trepando... A única coisa mesmo que tenho trepado, meu Carlos, é de andares...", Os Maias, cap.VI

Casa de Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, etc.

(Calçada dos Caetanos)

Casa de Camilo Castelo Branco

(Rua da Rosa

 

3. O Cais Sodré

Outro polo da Lisboa Queirosiana tem como ponto central o Cais do Sodré, onde se iniciara pouco antes as obras do Aterro de Santos (1867).

- Largo Barão de Quintela. Estátua em bronze da autoria de Teixeira Lopes (inaug. 1903). O original está no Museu da Cidade/Palácio Pimenta, no Campo Grande.

- Rua do Alecrim: Hotel Street (nº.47), Taverna Inglesa

 

Grande Hotel Central

(Praça Duque da Terceira,27- antiga Praça dos Remolares). Fechou em 1919

- Discussão entre Ega, defensor do Naturalismo, e Alencar defensor do Romantismo

- No jantar de homenagem a Cohen, Carlos da Maia repara em Maria Eduarda que estava hospeda neste hotel.

 

- Aterro da Boavista (Av. 24 de Julho).

Aterro da Boavista

Á última cena d`Os Maias" que envolve Carlos da Maia e João da Ega passa-se nesta zona. Ambos concluem o país estava condenado à decadência. O percurso que Carlos das Maia fazia entre o Ramalhete às Janelas Verdes e o Chiado.

Atrasado para um encontro com Vilaça no Hostel Bragança, Carlos da Maia e Ega correm para apanhar io americano:

"Então , para apanhar o americano, os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela Rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia".

 

4. Outros Locais em Lisboa

No seu prolongamento para Ocidente temos as Janelas Verdes, onde na rua Presidente Arriaga (Rua Francisco de Paula, nas Janelas Verdes), onde ficava o Ramalhete d`Os Maias (nº 92 ?). Não muito longe está o Cemitério dos Prazeres

Convento e Igreja de S. Francisco de Paula, no bairro das Janelas Verdes

Ramalhete

"A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida na vizinhança da Rua Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela Casa do Ramalhete, ou simplesmente Ramalhete.", Os Mais, cap.1.

Casa de Dâmaso Cândido de Salcede

(Rua de S. Domingos, à Lapa). Os Maias, cap.VII

Cemitério dos Prazeres (Fundado em 1833).

Maria Eduarda visitou a campa do avô, Os Mais

«O bom Vilaça teve no Cemitério dos Prazeres o seu jazigo - que fora a alta ambição da sua existência modesta.», Os Maias

Caminhando para Oriente, temos a Praça do Pelourinho, o Terreiro do Paço e a Estação de Santa Apolónia, locais abundantemente referidos por Eça de Queiróz. ).

Praça do Pelourinho

Foi no Hotel Paris que Guimarães entregou a João da Ega os papéis onde constava a verdadeira identidade de Maria Eduarda.

Café Martinho da Arcada (Terreiro do Paço) - S. Bento (Cortes, Parlamento):

Ega:"-Lisboa é Portugal (...). - Fora de Lisboa não há nada. O país está todo entre a Arcada e S. Bento!...", Capi.VI, Os Maias

Cais das Colunas (Terreiro do Paço)

«O rio agitado, na maré crescente, batalhava tristemente na escuridão contra as escadas do Cais das Colunas: entre os botes amarrados, a água tinha tenebrosidades frias: vultos de navios faziam, na noite escura, redobramentos de sombras: e aqui, além, num mastro, tremeluzia um fanal mortiço.», Os Maias

Nos Olivais, pode visitar a "toca" (Quinta do Contador-Mor)

Toca

"– Isto é encantador! – repetia ela. – É um paraíso! Pois não lhe dizia eu? É necessário pôr um nome a esta casa… Como se há-de chamar? Vila Marie? Não, Château Rose… Também não, credo! Parece o nome de um vinho. O melhor é baptizá-la com o nome que nós lhe dávamos. Nós chamávamos-lhe a Toca.", Os Maias

Carlos Fontes

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