5.
Neo-caciquismo
Na
posse de importantes recursos públicos, os autarcas tornaram-se depois de 1974
em verdadeiros caciques locais. Ao contrário dos antigos caciques durante a
ditadura, o seu poder não advém dos conhecimentos possuem junto do Estado
central, mas dos orçamentos camarários que gerem. Os caciques actuais, com
dinheiros públicos, tornaram-se em muitos concelhos nos principais
empregadores, distribuindo cargos, subsídios pelos correligionários,
amigos, apoiantes, etc.
Um
das formas mais expedidas que encontraram para subirem os seus ordenados, darem
empregos aos membros dos respectivos partidos que não foram eleitos, mas
também para financiaram os próprios partidos, foi a de criarem empresas
municipais. Em 2010 calculava-se que existissem em Portugal mais de 2.000
empresas municipais, a maioria das quais totalmente endividadas. Estavamos perante
verdadeiros antros corrupção que os autarcas não largam
mão.
Os
novos caciques controlam a imprensa local (jornais e rádios) não através da censura, mas através
de subsídios ou da publicidade. Se enaltecerem a obra da câmara recebem,
caso contrário serão penalizados. Chegaram ao ponto de estabelecer protocolos
de colaboração com os jornais locais, assentes num compromisso mútuo: dizerem
bem da actuação dos autarcas, a troco de publicidade camarária (CM Porto, CM
de Gaia, etc. - Público, 30/6/2006).
No
Alentejo, as câmaras municipais ligadas ao Partido Comunista Português,
financiavam um jornal diário (Diário do Alentejo) que se tem destacava na
propaganda destas autarquias.
O
melhor exemplo do desvario que reina nas autarquias portuguesas pode ser
observado nos investimentos feitos na propaganda feita pelos partidos nas eleições autárquicas. O peso político dos caciques locais fez disparar os
custos das suas campanhas eleitorais, ultrapassando a partir de 1997, o
realizado nas eleições legislativas. Em 2009 foi seis vezes superior
(Expresso, 29/8/2009).
Para
puderem suportar estas campanhas cada vez mais caras, um crescente número de
autarcas, no exercício dos seus cargos, passou a dedicar uma boa parte do
seu tempo e dos recursos públicos a criar e alimentar vastas redes clientelares
através de esquemas mafiosos (subsídios públicos, corrupção, tráfico de
influências, etc.).
Ninguém dúvida da
importância das autarquias, assim como das suas virtualidades, mas o país estava confrontado perante a necessidade de uma verdadeira revolução no seu
funcionamento. O que existe não pode continuar, é a própria democracia que
está em causa.
6.
A Reforma Adiada
O
mapa das autarquias (308 câmaras e 4.260 juntas de freguesia) data do século XIX , estava completamente desfasado das necessidades administrativas do país.
Vários
estudos são conclusivos num ponto: Existem concelhos e freguesias a mais em
Portugal, implicando custos elevadíssimas e um enorme desperdício de recursos. Acontece que os autarcas temendo perderem lugares, opunha-se a qualquer reforma
administrativa.
Lisboa, paradigma do descalabro nacional
Lisboa
era o exemplo paradigmático desta completa irracionalidade. Um único concelho,
com 53 freguesias, algumas das quais tem apenas algumas centenas de fregueses,
enquanto outras possuem largas dezenas de milhares. A população de Lisboa
diminuiu 41% entre 1981 e 2008, mas os custos da Câmara e das Juntas de
Freguesia nunca pararam de aumentar.
A Câmara estava falida, mas
nenhum partido pretendia mudar a situação. O enorme desgoverno e desperdício
provocado por esta situação interessa aos bandos de mafiosos que estavam instalados autarquia, daí que a questão da reforma da administração da cidade de
Lisboa fosse um assunto tábuo.
Juntas de Freguesia, exemplos de desperdício de recursos e de ladroagem
Portugal,
em toda a Europa, é o país com maior número de Juntas de Freguesia. A sua
criação no século XIX, correspondia à implantação local da Igreja Católica, funcionando como meios para os caciques locais agirem junto dos governos. A sua distribuição no território obedecia a critérios alheios a uma racionalidade administrativas. O
concelho de Lisboa possui 53 Freguesias e o do Porto 15. Apesar de no primeiro
caso ser um claro exagero, um completo desperdício de recursos, a verdade é
que no contexto nacional a situação nem sequer é a mais grave:
Barcelos
possui 89 (oitenta e nove) freguesias, Guimarães - 68; Braga - 62; Vila Verde -
58; Guarda - 55; Ponte de Lima -51; Chaves -50; etc, etc. Esta proliferação de
juntas de Freguesia servem apenas para aumentar as despesas do Estado e alimentarem as clientelas locais.
A
aberração era completa quando se comparavam as populações servidas pelas
respectivas juntas. A freguesia de Bigorne (Lamego) têm apenas 39 habitantes e
a de Montreira (Vinhais) - 44 (dados de 2008). A freguesia de Algueirão-Men
Martins possui 62.557 habitantes e a de Agualva Cacém - 81.845 habitantes. Nada
justificava semelhantes disparidades, a não ser a manutenção das clientelas
locais.
O
mesmo exercício podia ser feito comparando as áreas das diferentes freguesias,
com a população abrangida. O resultado é sempre o mesmo: estamos perante um
sistema totalmente irracional, sem qualquer ganho para o país e as populações
locais.
Não
é apenas o mapa das autarquias que constituia uma completa aberração, o que
está sobretudo em causa é o descalabro que reina na sua gestão. Estavamos
perante verdadeiras escolas de ladroagem dos recursos públicos, onde se usam
todos os expedientes para roubar o erário e o património público.
O
dinheiro atribuído às juntas serve para tudo, menos para o cumprimento das
funções que lhes estão atribuídas. Atribuem prémios e subsídios para tudo
o que se possa imaginar, realizam espectáculos, contratam cortes de assessores,
pagam cursos, financiam e promovem viagens pelo país e estrangeiro, publicam
luxuosos boletins, financiam clubes desportivos, etc, etc. Muitas possuiam
verdadeiras frotas de automóveis e autocarros. Estavamos perante um sub-mundo da
administração pública portuguesa onde tudo era possível.
Não
raro, por causa de negócios obscuros, envolvendo nomeadamente baldios,
presidentes e ex-presidentes de juntas de freguesia agrediam-se ou
matavam-se. Os tribunais estavam repletos de casos escabrosos destas negociatas.
A
Junta de Freguesia de Agualva (Sintra), por exemplo, especializou-se em pagar
licenciaturas e pós-graduações aos seus funcionários, presidentes, vogais,
etc (Público, 20/1/2011).
Face
ao este panorama era lógico que os autarcas em Portugal, os grandes
beneficiários desta administração local caótica, perdulária, ineficiente e
permeável à corrupção estavam empenhados em que nada mude. A mudança só
era possível através de uma choque exterior fortíssimo no país.
Municípios
Os
municípios ou concelhos portugueses tem origem na organização política
criada pelos romanos, tendo-se mantido ao longo dos séculos como as
estruturas básicas de organização local das populações. Na
grande reforma dos concelhos, em 1835, foram criados 856 municípios. No
ano seguinte foram reduzidos para 383. Em 1898 eram cerca de 300.
Actualmente são 308.
Juntas de
Freguesia
Ao longo do
século XIX, o seu número foi sempre diminuindo, uma tendência que não se
verificou no século XX. Em 1950 existiam cerca de 3.853 freguesias. Em 1974
o seu número subiu para 4.029. Em 2008 eram 4.260.Funcionários:132.000
funcionários, sem contar com os largos milhares trabalhadores que trabalham
para as autarquias a recibo verde, ou que o fazem em empresas municipais,
etc. Autarcas: 57.445 eleitos (Dados
de 2011), sem contar com as hordas de assessores, comissários políticos,
etc. Financiamento :Em
2011 mais de 2,8 mil milhões de euros foram transferidos pelo Estado para
as autarquias. Para além destes montantes arrecadam as taxas e impostos que cobram, recebem
rendas de imóveis, baldios, concessões, fundos comunitários, etc. Recorrem
com frequência à venda de património (prédios, terrenos, obras de arte,
etc), bens acumulados durante gerações para manterem o despesismo em que
vivem. Não
param também de se endividar directamente ou através das múltiplas
empresas municipais. As dividas acumuladas à banca são uma afronta ao
país. .Os
bandos de parasitas instalados nas autarquias lançam mão de todos os
expedientes para manterem a actual situação de total descontrolo.
Reforma de 2013/4
A crise económica de 2008 impôs a necessidade de um maior controlo das despesas públicas o que acabou por forçar a algumas mudanças na administração pública. Uma das que ocorreu foi a diminuição do número de empresas municipais e de Juntas de Freguesia, mas no essencial tudo ficou na mesma.
Carlos Fontes |