Público -
Privado : Formas de Organização Política
Uma
das formas actuais de descrever os vários regimes políticos é vê-los numa
perspectiva que tenha em conta as relações entre o Estado, o espaço público
e o espaço privado. Estes conceitos não tem parado de se modificar.

A Democracia na Grécia Clássica constituiu
durante séculos o modelo ideal das relações entre o público e o privado. Os
cidadãos livres e iguais perante a Lei, em lugares públicos discutiam e decidiam sobre as
questões que a todos diziam respeito. Este modelo político implicava uma larga
participação dos cidadãos.
Nos regimes que sucederam ao fim da Democracia
grega, foram quase sempre caracterizados por um Estado dominador, nos quais não podemos falar em verdadeiros
cidadãos, mas em súbditos. Não existe liberdade, e a iniciativa individual
estava fortemente condicionada. Os espaços públicos são limitados e totalmente
controlados de modo a evitar a reunião e expressão da opinião dos cidadãos.
Estes sem qualquer
autonomia, limitam-se a esperar ou a reclamar que o Estado resolva
tudo. Uma prática comum a todas as monarquias absolutas
e ditaduras.

Na Europa, durante a Época Moderna (séc.
XVI-XVIII), inicia-se uma profunda mudança no sistema político que irá
libertar os espaços públicos e afirmar a autonomia da esfera privada face ao
Estado.
Os cidadãos, em particular os burgueses, que
frequentavam os salões literários, os clubes, cafés e outros espaços
públicos, onde debatem os direitos dos cidadãos, exigiram liberdade de
reunião, expressão e de voto, mas também liberdade a religiosa, a garantida
da protecção dos seus bens (propriedade) e o fim da interferência do Estado
na vida privada.
As monarquias absolutas foram sendo derrubados, e
implantados regimes liberais, assentes na livre iniciativa dos cidadãos. A
revolução inglesa (1688), a Independência dos EUA (1776) e a Revolução
Francesa constituíram marcos históricos neste processo. O poder e funções do Estado foram
muito limitados nos novos regimes políticos.
Esta valorização da pública e esfera privada, estimulou a
emergência de grandes grupos económicos que não tardaram a aprisionarem os
próprios Estados. A comunicação social começou a ser dominada e posta ao
serviço dos vários interesses económicos em confronto.
Os Estados sem grandes recursos abandonaram os
mais carenciados. As revoluções sociais contra o regimes liberais sucederam-se
ao longo de todo o século XIX e princípios do século XX.
O desenvolvimento deste sistema liberal acabou por
estimular o individualismo, a insensibilidade perante as desigualdades sociais
ou problemas sentidos pelos mais carenciados. O egoísmo sobrepôs-se
frequentemente a qualquer
consideração comunitária.

Na Europa, no século a partir
do século XX, como resposta aos excessos do liberalismo e do estatismo,
expandiu-se um novo modelo de organização social que procurou estabelecer
um equilíbrio entre a esfera
privada e a do Estado. A iniciativa privada e dos mercados foi mais controlados,
tendo em vista beneficiar os mais carenciados e esbater as desigualdades sociais,
evitando os descontentamentos sociais. Os que auferem maiores rendimentos, por
exemplo, são obrigados a contribuir com mais recursos para o bem comum, de
forma a beneficiar quem mais precisa.
Em muitos países ocidentais,
sobretudo depois de 1945, largas camadas da população viram as suas condições de vida melhoraram e
expandirem-se os seus direitos políticos, sociais e culturais.
Dilemas Actuais
dos Regimes Políticos Ocidentais
Nas últimas
décadas o mundo Ocidental está mergulhado num dilema sobre qual o melhor
modelo político a seguir. Está generalizada a ideia que o "Estado
Social", com tudo o que o mesmo implica, é demasiado caro e ineficiente.
a) Fim do Estado
Social
Perante este problema, muitos
governos tem optado por um vasto programa de privatizações de sectores
estratégicos (correios, transportes públicos, saúde, segurança social, etc),
sob o pretexto que passarão a ser mais baratos e geridos de forma mais
eficiente. O conceito de privatização está a destruir a própria ideia de
vida em comum, fomentado a guetização dos individuos. Os privados,
identificados com os "mercados", dominam a economia, condicionam as
decisões políticas, reduzindo os Estados à sua expressão mínima.
b) Reforço do
Estado Social
Perante este
problema, muitos outros defendem que os sectores essenciais de uma comunidade
devem ficar nas mãos do Estado. O que está em jogo é a necessidade de uma
maior racionalização das estruturas e utilização dos recursos
públicos, que só poderá ser feito através do reforço da
participação dos cidadãos na vida pública.
Este modelo tornou-se
demasiado caro porque:
- O "Estado de Bem-Estar
social" foi acompanhado por um crescente afastamento e desinteresse dos
cidadãos pela política (coisa pública). O egoísmo e uma brutal concentração do capital passou a imperar.
- A expansão dos direitos dos
cidadãos implicou um aumento contínuo de recursos para distribuir. O problema
é que não é possível continuar a subir os
impostos para financiar as actividades do Estado.
Uma das formas de manter o
equilíbrio é através do crescente envolvimento dos cidadãos na
resolução dos problemas comunitários de modo a suprir a carências da intervenção do Estado. O voluntariado, civismo
e cidadania tornaram-se os valores fundamentais dos novos programas políticos
democráticos. |