O excursionismo motorizado tem larga tradicão em Portugal. Entre os anos 40 e 70 rara era a tasca, taberna ou carvoaria que não servia de sede a um grupo excursionista informal. Numa parede era afixado um quadro com as fotografias dos membros do grupo, com destaque para os fundadores. Era modo económico de gente humilde, "operários", conhecerem o país e conviverem. O meio de transporte era um autocarro alugado, embora alguns grupos recorressem a percursos pelas ferrovias existentes, muito densas até aos anos sessenta. O acesso a viaturas particulares e a progressiva extinção do associativismo, tornou rarissimos estes grupos excursionistas pelo país.
Ditadura
A Ditadura (1926-1934) foi das primeiras a servir-se da ideia de uma "excursão à capital", gratuitas, para em momentos de exaltação do regime encher o Terreiro do Paço. A organização dos comícios de Salazar em Lisboa envolvia uma logística minuciosa de transporte, frequentemente baseada na utilização de camionetas para trazer apoiantes das zonas rurais e arredores da capital. Uma logistica em que participavam os Governos Civis, Câmaras Municipais, Juntas de Freguesia e a União Nacional, o partido da ditadura salazarista/caetanista. Findo o comício, se havia tempo a população arrebanhada visitava, em geral, na zona de Belém, a Praça do Império, o Padrão dos Descobrimentos ou o Mosteiro dos Jerónimos. A FNAT-Federação Nacional para Alegria no Trabalho (INATEL), procurando proporcionar e controlar os tempos livres dos trabalhadores dedicou-se também a organizar excursões. A primeira ocorreu em 1935 e teve como destino Setúbal e a Serra da Arrábida. Pouco depois, possuia já uma frota de camionetas tal foi a procura das mesmas. A frequência destas excursões gratuitas organizadas pelas autarquias, geraram a convicção que esse era uma das funções essenciais, já que nas outras funções era quase sempre deficitária.
As escolas também tiraram partido da crescente oferta deste meios de transportes, lançando-se nas "visitas de estudo", em princípio articuladas com os conteúdos pedagógicos ministrados, mas também para atenderem aos mais diversos motivos. As paróquias apostaram no chamado "Turismo Religioso", organizando excursões a santuários pelo país, mas não só. As excursões, promovidas por empresas especializadas tornaram-se num negócio em expansão, nomeadamente para atenderem à procura dos turistas que nos visitam. Algumas prestigidas agências, como a Pinto&Lopes começaram pela organização de excursões em camionetas.
Democracia
Depois do 25 de Abril de 1974, as excursões organizadas pelas autarquias assumiram o legado excursionista da ditadura e banalizaram-no. Câmaras e Juntas de Freguesia adquiriram camionetas que passaram a andar em passeios pelo país, ou a transportar manifestantes para eventos políticos. O PCP foi inúmeras vezes criticado por usar e abusar deste processo, mas é uma clara injustiça, todos os partidos mal ganhavam o controlo de uma câmara ou junta de freguesia, logo se apressavam a organizar excursões, os "motivos" e o "público-alvo" apontados eram irrelevantes, como se pode constatar.
A grande novidade a partir dos anos oitenta do século XX foi nos destinos. As escolas secundárias e superiores passaram a organizar com maior frequência excursões a todos os países europeus, norte de África e até às américas. 
As paróquias deixaram de limitar-se aos destinos habituais, como Lourdes, Itália (Roma, Assis, Pádua, etc), ou Terra Santa, para avançarem pela Turquia ou Egipto, projectando-se para longiquos destinos como a Patagónia, como testemunhamos. Muito do prestígio de alguns párocos está ligado ao seu empenho excursionista.
Os municipios e as freguesias seguiram naturalmente o mesmo movimento planetário, aplicando crescentes recursos financeiros e humanos nas excursões. Nos anos, oitenta do século XX, em grande parte das 308 municipais e nas então 4.259 freguesias (em 2013 foram reduzidas para 3.091, e já foram respostas mais de 300), multiplicaram-se as ofertas de excursões gratuitas aos municipes/fregueses em roteiros pelo país ou no estrangeiro. As excursões às capitais imperiais da Europa, como Viena de Austria, tinham enorme saída entre as autarquias. Alguns autarcas adquiriram fama pela forma dedicada como organizavam as suas excursões internacionais, por exemplo, ao Brasil. Muito antes das mesma serem anunciadas já os municipios custeavam estadias de presidente e vereadores neste país, para estes experimentarem os conforto das camas dos alojamentos hoteleiros pretendidos, os cocktails nos bares que seriam oferecidos aos municipes contemplados.
Este frenesim excursionista organizado pelas autarquias em Portugal é único em toda a Europa comunitaria, cuja a explicação só pode ser procurada no hábito criado durante a ditadura salazarista. É verdade que conheceu um momento de acalmia durante a Pandemia (2020), mas voltou a expandir-se logo a seguir, assumindo-se como uma função central de qualquer municipio ou freguesia.

A Junta de Freguesia de Alvalade está ainda longe deste requintes, mas vai no bom caminho. Ao longo de todo os ano organizava um conjunto de excursões pelo país. Uma das suas grandes inovações neste domínio ocorreu em 2021, com os chamados Passeios Mistério. O freguês entrava no autocarro da Junta de Freguesia e acabava a visitar e a comer, tudo à borla, num qualquer ponto do pais. Os primeiros locais de desembarque foram a Batalha (6/11/2020), Coimbra (5/03/2021), Vila Nova da Barquinha (5/03/2021), Campo Maior (2/04/2021). Muitos outros locais se seguiram. Nos últimos meses, seleccionamos, a título de exemplo, um conjunto de excursões também gratuitas organizadas pela Junta que nos permitem ter uma visão do leque de sítios contemplados: Salinas do Samouco (21/03/2026), Coimbra (22/02/2026), Centro Comercial Colombo (6/02/2026), Mafra (22/11/2025), Peniche (18/10/2025), Jardim Oriental Bacalhôa Buddha Eden (22/09/2025). Dentro em breve, com a experiência adquirida pelo pessoal envolvido nestas excursões, incluindo os assessores contratados, garantem-nos que a Junta de Freguesia, irá fazer excursões de dois ou três dias, o que permitirá avançar pela Europa além fronteiras.
A Junta de Freguesia de Alvalade tem neste aspecto uma enorme vantagem em relação às restantes no país: um presidente ligado ao mundo da hotelaria/turismo, que faz questão de acompanhar os excursionistas nestas viagem pelo país. Dir-se-à que é uma perda de tempo tantas são as competências que estão atribuidas à Junta, mas se tivermos em consideração o pouco conhecimento que continua a revelar da própria freguesia, é seguramente um investimento no seu conhecimento terrritorial , como os "operários" doutros tempos faziam com as suas excursões pagas com os tostões que conseguiam retirar aos miseros ordenados que recebiam.
15/03/2026 |