Reacções


Após termos publicado a noticia anterior, pelas duas horas da madrugada do dia 1 de Junho de 2022, a vogal com o pelouro dos Direitos Sociais da Junta de Freguesia de Alvalade, na sua conta Facebook publicava o seguinte post:


O texto levanta várias questões que merecem alguma reflexão: a primeira é a que destinatários se dirige . Quem são os parvos que escrevem parvoíces? A autora embora não se inclua nessa categoria, confessa todavia que tem deslizes momentâneos de parvoices. A questão em termos aristotélicos é saber se quando escreveu este post em que estado se encontrava, antes, durante ou após a parvoice. O texto nada nos elucida.

A segunda parte do texto é mais complexa. Parte do conceito genérico de povo, supõe-se que seja o "povo português" ou quem sabe o "povo da freguesia de Alvalade". Esta generalização abusiva como ensinou Jean Paul Sartre é vazia, logo não é possivel identificar o(s) destinatários. Se recuarmos no tempo, aos ensinamentos da antiga escola da "psicologia dos povos" de Josephe A. Gobineau, Houston S. Chamberlain, W. Wundt, Gustav le Bom entre outros, o conceito ganha alguma pertinência. Esta corrente trouxe novas bases para as teorias racistas e nacionalista do final do século XIX e princípios do século XX, estabeleceu uma hierarquia de povos e definiu para cada uma deles um conjunto de características culturais e comportamentais supostamente imutáveis. Foi incorporada como é sabido nas ideologias dos regimes totalitários. Os portugueses na hierarquia de povos então muito divulgada, por serem considerados um povo impuro, produto de uma enorme miscelânea genética, eram pouco afortunados em termos de inteligência. Uma ideia que muitos dos nossos intelectuais, que não se sentiam parte do "povo português", acabaram por assumir e reproduzir: Guerra Junqueiro considerava o povo português o "cadáver de um louco sem alma", "imbecilizado", "resignado", "macambuzio". Sampaio Bruno classifica-o de cruel, feroz, fanatizado. Basilio Teles afirma que é mediocre, fraco, imprevidente, privado de faculdades superiores. Adolfo Coelho diz que lhe falta quase tudo, nomeadamente iniciativa, individualidade e educação. A listagem é longa para descrever este "povo de suicídas", nas palavras do filósofo espanhol Miguel Unamuno

O texto da vogal da Junta de Alvalade, com o pelouro dos Direitos Sociais, não sendo uma novidade absoluta, introduz alguma novidade nas caracteristicas do "povo português":

- É "uma cambada de pelitras" (pobres, miseráveis, subsídiodependentes ).

- Não possuem as mínimas condições de existência, isto é, "não tem onde cair mortos". Uma referência implicita à rainha dona Leonor que em 1498 fundou as misericórdias para atender a este grave problema: enterrar os mortos e cuidar dos que estão com os pés para a cova.

Perante disto, a vogal encontra uma contradição insanável: Apesar desta desgraça ancestral do "povo português", em vez de aceitar a esmola que lhe é dada, assumindo a fatalidade da sua triste existência. Este povo não está "feliz com nada".

É aqui que a vogal do excutivo de Alvalade verdadeiramente inova ao introduzir o conceito de felicidade. Como é sabido é um conceito central na politica de Aristóteles. Este deveria ser o ojectivo de qualquer sociedade democrática bem organizada (vide A Política). O problema para Aristóteles era o que fazer com os infelizes, os escravos, os que trabalham. A receita é conhecida: Aristóteles sugere a criação de escolas próprias para os escravos , ensinando-os a aceitarem a sua condição de escravos. Ao conformarem-se com aquilo que a vida lhes deu encontrariam deste modo a felicidade. A vogal de Alvalade não chega a tanto. Ficamos sem saber se é porque não quer ir por este caminho, ou porque está a ficar "velha".