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Centro Interpretativo da Calçada Portuguesa em Alvalade

António Prôa, antigo autarca de Alvalade, presidente da Associação da Calçada Portuguesa. Figura central no reconhecimento da calçada e dos calceteiros, como um saber fazer e uma arte indentitária de Portugal

Dia 22 de Julho, Dia Nacional do Calceteiro, na chamada sala ogival, no Castelo de S. Jorge, foram publicamente assumidos vários compromissos do Estado, incluindo a CML, na promoção da calçada portuguesa, como a criação de um centro interpretativo e museu a ser construido na Rua João Saraiva 40, em Alvalade. Aqui se encontram guardados desde 1950, cerca de 5.000 moldes de calçada portuguesa, correspondendo a mais de 3.000 modelos distintos. O inventário não está fechado. 

O local escolhido para esta comemoração, a primeira que foi realizada após a aprovação do dia na Assembleia da República, não podia ser mais oportuno, foi aqui que tudo começou em 1841, quando o governador de armas do quartel instalado no Castelo, mandou executar o calcetamento, em ziguezague, na parada militar. António Miranda, o "professor", como os mestres calceteiros o tratam, na sua síntese histórica, referiu que o tenente-general Eusébio Cândido Cordeiro Pinheiro Furtado, recorreu aos presos do Limoeiro, devidamente remunerados, para executar o enorme tapete, com pedras brancas e pretas. O êxito foi imediato. Estava encontrada uma nova expressão artística.

A calçada saiu para fora da praça de armas, entrou pela Rua de Santa Cruz do Castelo, a pedido da CML, estendeu-se pela Calçada do Marquês de Tancos.Na foto anterior, podem ver-se alguns vestigios do pavimento original na Rua de Santa Cruz.

Os moradores do Castelo foram os primeiros a saudarem a iniciativa, homenageando o governador, com uma inscrição colocada na rampa que dá acesso ao castelo. Com a renovação do Rossio (Largo D. Pedro IV), propôs que os calceteiros do Limoeiro, repetissem o desenho das ondas, o que foi concluido em 1849. No ano seguinte, no Porto, surgia um enorme tapete com o motivo do Mar ao Largo, como as ondas passaram a ser conhecidas.

 

A calçada portuguesa depois de 1850 começara a sua expansão não apenas por Portugal, mas também pelo mundo, com uma forte carga identitária. O número de calceteiros não parou de aumentar, assim como o aperfeiçoamneto da arte. Em Lisboa, no ano de 1891 formou-se a Associação dos Calceteiros de Lisboa, dissolvida na década de cinquenta do século XX. Curiosamente foi nesta década e na seguinte, que muitos artistas desenhararam moldes para a "calçada artistica portuguesa".

É dificil encontrar uma arte em Portugal com tão forte carga identitária, reconhecivel em todo o mundo, como referiu o reitor da Universidade de Lisboa, Prof. Luís Ferreira, no elogio que fez aos que a materializam, os mestres calceteiros (na foto). O problema, como foi também várias vezes repetido, é que a profissão é pouco apelativa para os jovens. A Escola de Calceteiros de Lisboa, criada 1991, foi um passo importante para a preservação da arte, mas claramente insuficiente. A profissão carecia de ser reconhecida, e de ser melhor remunerada. A criação da Associação da Calçada Portuguesa, a consagração do Dia Nacional do Calceteiro (2026), a classificação municipal de algumas calçadas, a candidatura à UNESCO como património imaterial (março de 2025), assim como a criação de um Centro Interpretativo-Museu em Alvalade, são passos importantes para o seu reconhecimento e valorização.

Não deixa de ser significativo, por último, a ausência de membros da actual Junta de Freguesia de Alvalade (PSD/CDS/IL) nesta cerimónia, na qual esteve presente o presidente da Assembleia Municipal de Lisboa (André Moz Caldas), vereadores da CML, presidentes de diversas juntas de freguesia, deputados da Assembleia da República, membros do governo. Uma ausência que revela  a forma marginal como a Junta encara os espaços públicos, preocupada que está em esbanjar recursos públicos nos "eventos".

Continua...