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Nova Exposição no Museu Rafael Bordalo Pinheiro

" Busto do "Pai Paulino", FF das Caldas da Rainha, 1893.
Em 2026 comemora-se os 150 anos da figura do Zé Povinho, um acontecimento mais do que suficiente para a renovação da mostra permanente no Museu Rafael Bordalo Pinheiro, recentemente inaugurada no Campo Grande.
Entre as novidades da mostra está a faceta racista e colonialista de Rafael Bordalo Pinheiro. Nada disto o impedia, todavia de ser ao tempo um "progressista" no sentido mais amplo do termo: liberal, anti-monárquico, anti-clerical, repúblicano e abolicionista, considerando que a escravatura degenerava o homem branco. Não ignorava, o envolvimento dos portugueses desde o século XV no comércio de escravos, fundamental para a exploração colonial no Brasil, onde a sua abolição em 1888, provocou a queda da monarquia e implantação de um regime republicano. A defesa do "Império" e da "Civilização" sobrepunha-se às questões morais e da "dignidade humana" kantiana.

No final do século XIX, o regime monárquico em Portugal era acusado pelos republicanos de descurar a defesa do "Império Colonial Português", face ao apetite de outras potências, como a Inglaterra, a Alemanha ou a Bélgica. Muito eram os que advogavam a venda a retalho das colónias para pagar dividas externas e diminuir o "esforço" financeiro e militar de as manter. Bordalo, atacou em 1900 o governo monárquico, representando os seus membros como uma tribo indigena africana, em rituais antropofágicos. O canibalismo era um estereotipo dos africanos que teimava em perdurar. "A Herança Histórica", in A Paródia, 14/03/1900

A igualdade do género humano só existe apenas na "hora da morte", poderia a lengenda deste desenho. Com excepção dos quadris (ancas) de uma "mulher bonita, observando os esqueletos nenhuma diferença se destaca entre um plebeu e um rei, um mendigo e um rico, uma mullher bonita e uma mulher feia, um preto, um estupido e um homem de talento. A não comparação de um preto com um branco, por exemplo, não deixa de ser significativo da ambiguidade como aborda a questão da hierarquia das raças, então muito em voga nos meios cientificos. "Sem Nascaras",O António Maria, 23/02/1882.
A revolta dos povos africanos contra os colonos, o "homem branco", era encarada como uma acção irracional partindo daqueles que eram considerados possuirem costumes e tradições "selvagens", serem uns inutéis para o "progresso" quando entregues a si próprios. Os massacres prepretados na "pacificação" dos povos nso vários continentes, eram justificados em nome do seu próprio bem. Havia que retirá-los do estado selvagem, primitivismo em que se encontravam.
O final do século XIX acelerou-se o retalhada de a África pelas potências europeias. A ideia de unir territorialmente Angola a Moçambique foi abandonada em 1890, com o Ultimato Inglês. Um acto sentido como uma traição, a algo que os portugueses supostamente tinham "direitos históricos". Bordalo, com tantos outros artistas e escritores do seu tempo, depois de anos de uma fase pessimista do país, mnifestaram um sobressalto "patriótico", passando a assumir-se como defensores do "Império Colonial Português". No desenho, como na cerâmica deu forma a este "combate" patriótico.

Caricatura de Moringue Gungunhana (Mudungazi ou Mundagaz), imperador de Gaza (norte de Moçambique), liderou a revolta contra o domínio dos portugueses. Foi então enviada uma expedição militar, comandada por António Anes, e que integrava Mouzinho de Albuquerque, Paiva Couceiro e Caldas Xavier. Após vários confrontos foi capturado em Chaimite (1895). Foi trazido para Portugal, sendo exibido em Lisboa como um troféu de caça, ficou preso no forte do Monsanto, sendo depois levado para Angra do Heroismo, na Ilha Terceira (Açores), onde faleceu em 1906. Os seus restos mortais foram trasladados para Moçambique, em Dezembro de 1895, por iniciativa de Samora Machel, na ocasião das celebrações do 10.º aniversário da independência moçambicana. Gungunhana, simboliza a luta anti-colonial do povo moçambicano. Bordalo produziu em série caricaturas de Gungunhana. Peça datada de 1897, FFdas Caldas da Rainha.
A "Batalha de Chamite" deu nome em Portugal, a um filme, realizado por Jorge Brum do Canto (1953) e a uma conhecida viatura militar, concebida no país, e que se tornou num dos simbolos do 25 de Abril de 1974.
Não devemos estranhar esta posição de Bordalo, ao longo do século XX, nunca faltaram europeus que se consideraram superiores em relação aos nativos do resto do mundo, em particular aos africanos negros. A mudança de mentalidades foi sempre muito lenta e desigual na história da humanidade. Os recuos civilizacionais frequentes.
É verdade também que, antes, durante e depois de Bordalo, nunca faltaram individuos com outra visão igualitária dos seres humanos, quase sempre uma minoria, como os anarquistas. Bordalo, mergulhado nestas contradições sobre o género humano, não deixou de imortalizar num busto, Pai Paulino (Brasil,1789?-Lisboa, 1869), um negro liberto que combateu nas tropas liberais pela democracia e liberdade em Portugal e os direitos dos africanos. No entanto, no jornal Pontos Nos II, 28/07/1888, faz dele uma caricatura apelidando-o de "o célebre Pai Paulino das touradas", onde sugere a existência de um rabo de macaco.

Uma das várias novidades da nova exposição é a forma como Bordalo aborda a questão da homossexualidade: um "entrudo de todo o ano". A questão da liberdade sexual dificilmente a poderia admitir, mas também não a condena explicitamente. Foca-se apenas na ideia que alguns homens assumem, durante todo o ano, o papel de mulheres e vice-versa. Caricatura do politico Marquês de Valada e da escritora Guiomar Torresão, in O António Maria, 21/02/1884.
O Marquês, José de Menezes e Távora Rappach da Silveira e Castro (1826-1895), membro do partido Regenerador , em 1881, provocou um enorme escândalo na sociedade portuguesa: Foi surpreendido em flagrante no engate de um soldado de infantaria numa pensão situada na Travessa da Espera no Bairro Alto, Lisboa. O soldado foi preso e no Governo Civil confessou as perseguições libidinosas do marquês, que acabou também preso. Não faltou na imprensa, livros e alusões em espectáculos à vida de devassa deste político. O romance O barão de Lavos (1891), de Abel Botelho, terá sido inspirado por este caso. Os discursos homofóbicos proliferaram.
Guiomar Delfina de Noronha Torresão (1844-1898), escritora e feminista, representava o contrário do que a sociedade machista esperava de uma mulher. A sua independência intelectual, foi uma das primeiras mulheres a viver da escrita, tornou-se insuportável, nomeadamente para Bordalo. Foi a única mulher a integrar o grupo de 242 sócios fundadores da Associação dos Jornalistas e Escritores Portugueses, criada em 1880. Nunca casou nem teve filhos. Corriam boatos sobre o seu lesbianismo.
Na imensa produção artistica de Rafael Bordalo Pinheiro, a selecção das peças a expor é sempre um desafio, pela mensagem que passa no que é valorizado e no excluido. O Museu, optou por mostrar a diversidade de talentos de Bordalo sem omitir questões que hoje se revelam pertinentes na discussão pública. Está, pois, no bom caminho.
Pequeno Arquivo
FRAM
(Residências Artísticas no Museu Bordalo Pinheiro)

Exposição FRAM, no Museu Bordalo Pinheiro, a inaugurar no dia 11 de novembro, às 18h00, reune os trabalhos realizados por Ana Fonseca, Francisco Trêpa, Mariana Barros e Rita Leitão durante a edição do programa de residências artísticas Bordalo Pinheiro. FRAM é o acrónimo que junta as iniciais dos nomes dos quatro artistas que entre 13 de setembro e 13 de outubro de 2021 transformaram as salas do Museu nos seus estúdios de trabalho. Mais 
A pandemia obrigou ao fecho de museus e exposições mas não as suas actividades. O Museu Bordalo Pinheiro preparou-se da melhor forma para a reabertura que ocorreu no dia 6 de Abril de 2021: inaugurou mesmo em frente do edificio um "boneco" a 3D do mestre Bordalo e do seu gato Pires. Não deixe de visitar o museu ou uma das suas exposições.
Museu dedicado à obra de Rafael Bordalo Pinheiro
(1846 - 1905) instalado numa moradia do Campo Grande (prémio Valmor, 1914). O seu vasto
espólio integra pinturas, desenhos, litografias, impressos, publicações
periódicas e cerâmica produto da criação deste artista multifacetado, mas também
do seu filho Manuel. Nos últimos anos, o museu tem mantido um importante programa de exposições temporárias, nem sempre com destaque que mereciam. Uma dinâmica empreendida desde 2014 pelo seu diretor (Luis Alpuim Botelho).
Entre as exposições temporárias que aqui tem sido realizadas destacamos: Um Sonho. Bordalo e a Fábrica de Faiança (2019/20), Regresso das Andorinhas (2019), Lisboa de Bordalo (2017), Bordalo na Baixa (2016/17), Menezes Ferreira. Capitão das Artes (2014/2015).
Ao longo do ano são também organizadas um vasto conjunto de atividades, em especial dedicadas às crianças e jovens (Oficinas Pedagógicas).

A Casa-Museu Bordalo Pinheiro marcou presença no Mercado de Natal de Alvalade, numa clara aposta de ligação à comunidade local. Um objectivo prosseguido com determinação pelo seu diretor Luis Alpuim Botelho ( 4/12/2019)
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