No Deserto de Alvalade

Desde que foi eleito, em Setembro de 2021, o actual presidente da Junta de Alvalade (Novos Tempos, PSD/CDS-PP) tem passado a ideia que Alvalade carece de um banho cultura dada pela Junta, para se poder elevar ao nível das cidades desenvolvidas da Europa. A Oposição é frequentemente reduzida à condição de "cavalgaduras", para nos expressarmos segundo o léxico de Camilo Castelo Branco (Eusébio Macário, etc). Não se cansa de repetir o discurso da parvónia, voltando a fazê-lo nas três últimas sessões da Assembleia de Freguesia (16/12/2023; 10/01/2024 e 23/02/2024). Nesse sentido, sob a sua orientação, a prioridade da Junta é a cultura, a educação dos moradores pela arte. Outras preocupações mais comezinhas, como a higiene urbana foram secundarizadas. Alvalade é um deserto cultural ?  Por sugestão de um sociólogo da cultura do ISCTE, durante um dia, avaliamos a oferta cultural da freguesia no campo das artes, excluindo  tudo o que fossem iniciativas da Junta. Vivemos na parvónia ? Veja aqui a amostra.

Subimos a Alameda da Universidade e entramos no Edifício da Torre do Tombo, deparamos desde logo com duas excelentes exposições, uma sobre a Luta dos Estudantes das Escolas Secundárias de Lisboa entre 1970 e 1974 contra a Ditadura, e a outra uma amostra documental sobre Natália Correia-"Amar, escrever, sonhar, viver, mais nada".No material exposto foi sem surpresa que descobrimos relatos da polícia sobre os estudantes do Liceu Padre António Vieira. A BBC indicava que era um dos liceus que liderava esta luta estudantill. Sobre a greve dos estudantes no dia 16 de Dezembro, o jornal da Praceta, publicou há vários anos o testemunho de um jovem do Liceu Camões - Rui Simões - cujo nome consta no processo dos detidos exposto na Torre do Tombo. Morava então na Rua Frei Tomé de Jesus.

A Exposição sobre Natália Correia, na Torre do Tombo, abriu a 15/09/2023 e era suposto encerrar a 19/01/2024, mas ainda a visitamos depois dessa data. A documentação exposta da conta da sua dimensão política e da acção da censura do regime.

"Há Sempre Alguém que Diz Não. A Oposição Estudantil à Ditadura no Ensino Secundário de Lisboa. 1970/1974.", Torre do Tombo. 15/12/2023 a 28/02/2024. A contestação estudantil no ensino secundário em Lisboa, Almada e Amadora adquiriu desde 1972 uma grande força. A Guerra Colonial, a repressão policial e o assassinato de Ribeiro Santos (12/10/1972) mobilizaram os estudantes para a luta. Sucediam-se os confrontros entre estudantes e a polícia, como ocorreu no Liceu D. Pedro V (8/02/1972) e no Liceu Pedro Nunes (19/05/1972). No ensino superior, as associações de estudantes eram alvo de um repressão sistemática.

No dia 16 de Dezembro  de 1973 alguns liceus entraram em greve, tendo sido presos 151 estudantes, 37 dos quais eram menores, como o irmão do jovem Rui Simões. O relatório que a PSP enviou para a Pide identificou cada um deles. Neste dia, a Faculdade de Medicina no Hospital de Santa Maria foi cercada pela policia e vários estudantes foram também presos.

No dia 17 de Dezembro desencadeia-se uma nova acção de luta nos liceus Padre António Vieira, Maria Amália, D. Pedro V, D. João de Castro, Pedro Nunez e no liceu de Almada, envolvendo quase dois mil alunos. Ocorrem boicotes às aulas, greves gerais, ocupações de escolas e manifestações nas ruas, uma contestação que alarmou o regime. No Liceu Padre António Vieira, onde dez alunos haviam sido presos no dia anterior, cerca de 100 alunos reuniram-se na sala de convivio e, em assembleia geral, apelaram a uma greve geral de protesto. O estudante João Carlos Teiga Zilhão do 7º. ano e José Paulo Casimiro da Fonseca, introduziram fósforos nas fechaduras das portas para que as aulas não pudessem realizar-se. Convidaram também os colegas à greve gritando: "Abaixo a situação", "Abaixo o fascismo" (Documentação exposta na TT).

A revolta dos estudantes estava generalizada. Durante o IIIº. Colóquio Nacional de Arqueologia Juvenil, de 17 a 23 de Fevereiro de 1973, que ocorreu no Palácio dos Congressos no Estoril, um grupo de jovens passou na assistência desenhos e frases jocosas contra os representantes do governo ali presentes, como o ministro da educação. No Centro de Educação Física, na Cruz Quebrada, onde estavam alojados, ameaçam os elementos estudantis infiltrados afectos ao regime. No caso de serem expulsos ou presos, seriam os bufos linxados, e conseguem desta forma o seu silêncio. Prosseguem a propaganda contra o fascismo e a guerra colonial. A viagem até ao Algarve torna-se numa caravana de propaganda contra o regime. O quatro 417 no Hotel Siroco é transformado centro de discussão e agitação política.

Para não perdermos tempo, entramos no átrio da Reitoria da Universidade de Lisboa, aforam para ver a exposição de Moita Macedo, poeta e pintor.

Moita Macedo, Pôr dop Sol, Técnica mista, s/d.

Ainda agora começamos a nossa prospecção no "deserto de Alvalade" e já andamos de passo apressado. Na Rua Dr. João Soares, entramos na Galeria 111 pra vermos a exposição de Samuel Rama - INSPIRARE

Samuel Rama, Desenho, 2023

 

A curta distância entramos no Centro de Arte Manuel de Brito, no Campo Grande 113A. Inaugurado em 2023 prepara-se uma grande exposição comemorativa dos 60 anos da Galeria 111, a inaugurar no dia 3 de Fevereiro de 2024. O acervo é constituido por obras do CAMB e da família de Manuel de Brito. Imperdível, garante o Jornal da Praceta.

 

Na visita que fizemos à exposição ficamos admirados com o vasto acervo de obras de arte que foi constituído. Por razões obvias, chamamos à atenção para um quadro de Carlos Botelho em que procura construir uma imagem icónica de Lisboa depurada carros e quase deserta.

Na nossa cabeça ainda rossoava a incisiva lição sobre liberalismo dada ao representante da IL e já estavamos a subir a rampa que nos iria levar à exposição -"Não ria. O humor é um assunto muito sério | 100 anos de SAM", a inaugurar dia 31 de Janeiro, no Museu Bordalo Pinheiro.

Após uma merecida pausa no Jardim do Campo Grande , entramos no Edifício Central do Município, no Campo Grande, 25. No àtrio tinhamos à nossa espoera uma exposição intitulada "Estratégia da Transparência e Prevenção da Corrupção na Câmara Municipal de Lisboa: o caminho. Plano 1023-2026". O tema é actualissimo, mas entre a propaganda e a prática no combate à corrupção vai uma grande distância. 

No primeiro andar tinhamos mais outra exposição: "Cabeça no Ar" de Vítor Magro. Uma série de cabeças "flutuantes" de
de pessoas e animais.

Vítor Magro, cabeça (2023)

Atravessando de novo o Campo Grande eís-nos no Museu da Cidade/Palácio Pimenta. Não vimos a exposição de Luís Pavão "Lisboa Frágil", porque só abre a 2 de Fevereiro, mas vimos duas outras bem interessantes: "Longe da Vista. Manuel Teixeira Gomes, entre Lisboa e Bejaia" e "Netsuke" de Albano Silva Pereira no Pavilhão Branco (24/01-31/03/2024).

Do que resta da colecção de obras de arte de Manuel Teixeira Gomes (1860-1941), consta este estudo de José Malhoa para as pinturas que decoram os Paços de Concelho de Lisboa: "E Tu, Nobre Lisboa que no Mundo...". Eleito presidente da república a 5 de Outubro de 1923, sentindo-se incapaz de fazer frente às forças reccionárias que conspiravam para implantar em Portugal uma ditadura militar, renunciou ao mandato a11 de Dezembro de 1925.

A exposição de Albano Silva Pereira, artista e colecionador é uma caixinha de surpresas. A profusão de objectos japoneses, alguns dos quais verdadeiras preciosidades, reveladores da sua enorme paixão pela cultura japonesa. Fotografias, filmes e uma instalação ensaiam a sua visão interpretativa desta cultura.

Netsuke / Albano Silva Pereira

Netsuke / Albano Silva Pereira - Mota Honda 900 SBR

Será que o actual executivo da Junta conhece Alvalade? Com esta dúvida em mente entramos na Biblioteca Nacional de Portugal, onde tinhamos três exposições para ver:" A China Vista da Europa. Séculos XVI-XIX"; "Maria de Lurdes Belchior, 1925-1998" e "Centenário do ABC-Zinho. Banda Desenhada em Portugal".

A exposição documental de Maria de Lourdes Belchior (1923-1998) situa-se na sala dos catálogos da BNP. O texto da Folha de Sala de forma sintética mas precisa, destaca aspectos marcantes da sua vida e obra, como investigadora, escritora, poeta e diplomata.

Perspectiva de uma das salas da exposição comemorativa dos 100 anos de revistas de banda desenhada em Portugal. Na mostra poderá deliciar-se com as capas ABC-Zinho (nº.1, 15/20/1921-nº350, 26/09/1932), onde publicaram Cottinelli Telmo e Carlos Botelho, entre outros, O Carlitos (nº1, 3/01/1923 - n.124, março de 1926), Tic-Tac (nº1, 1/12/32), Rim-Tim-Tim, O Papagaio, Mickey, O Mosquito, Lusitas, Camarada, O Faísca, Mundo de Aventuras, O Pimpão, Fagulha, Pluto, O Falcão, O Pardal (nº1, 29/05/1961), Pisca-Pisca (Jan.1968), O Jornal do Cuto, entre muitas outras revistas de BD. Imperdível I

A Exposição A China Vista da Europa, com mapas, roteiros, obras literárias, objectos artisticos e imagens digitais, dá-nos a visão da China ao longo dos séculos.  A sua existência era bem conhecida desde a antiguidade, através dos relatos de mercadores quase sempre fantasiosos. Foi a partir do chegada dos portugueses à India (1498) que este conhecimento mudou radicalmente, dando-se grandes avanços na cartografia e na chamada literatura de viagens. Macau, localizado junto ao antigo termino da Rota Maritima da Seda (cidade de Guangzhou, Cantão), a partir de 1557 desempenhou um papel fundamental neste processo, ao preparar  a entrada dos europeus, e dos jesuitas em particular, no vasto território chinês. Permitiu aos portuguesesentre os séculos XVI e XVIII serem os intermediários no comércio entre a China e o estrangeiro. Como refere a Folha de Sala da exposição, a Macau aportavam e zarpavam os navios para abasteciam as rotas da China e do Japão, de Manila e da Ásia de Sudoeste; da India em direcção a África; e pela rota atlântica, ao Brasil e a Portugal, e através deste, ao resto da Europa. Para a Europa vinham produtos como o chá, as sedas e as porcelanas, para a China eram enviadas novas plantas, ou transferidas técnicas de construção naval, de astronomia e cartografia, criando aquilo que hoje chamamos de globalização. 

Par de figuras chinesas com cabeças oscilantes

Conversando um amável funcionário da BNP, morador em Alvalade, falei-lhe do banho cultural que a Junta desde 2021 estava dar aos fregueses da freguesia. " A Junta?..." . Foi com um ar de espanto que nos dirigiu a pergunta. "Era melhor que se dedicasse a limpar as ruas e a arranjar os passeios estão uma lástima". Não alimentamos a conversa, tinhamos pressa.

A verdade é que não houve muito tempo para ver a exposição de Horácio Frutuoso - Guarda Nocturno e a de Nuno Nunes-Ferreira, ambas até 3 de Fevereiro, na galeria APPLETON - Associação Cultural. Prometemos voltar

Horácio Frutuoso, na Box, criou um ambiente que nos evoca o oriente devastado por guerras, para nos mostrar casas inacabadas, em construção ou destruidas.

Nuno Nunes-Ferreira, na Square, deu o título à sua exposição de Ano Sabático. Explorando a curiosidade do visitante sobre o conteúdo de cada uma das 12 caixas, onde estão reunidas 28 ou 31 obras de arte, adverte-nos que as mesmas desaparecerão se as mesmas forem abertas. O gato de Erwin Schrodinger (experiência mental da mecânica quantica, 1935) é aqui evocada, mas nãi era preciso.

Num adiantado estado de cansaço no "deserto cultural de Alvalade", dirigimo-nos aos Coruchéus mais precisamente à sala do Teatro em cada Bairro. Estivemos na sua inauguração, e não conseguimos acompanhar o discurso do actual presidente da Junta sobre a "cultura". Ficamos todavia com a ideia que terá sido um bom discurso pelo ar de manifesta satisfação de Nuno Lopes , um dos seus apoiantes. O tal que em 2021 anunciava pretender Mudar Alvalade.

A grande novidade introduzida no espaço "teatral", em Janeiro,  são três caixotes e dois restos de sofás colocados junto à porta. Garantem-nos que pela noitinha por ali ocorrem elevações para outra dimensão da realidade.

André Ruivo (1977-), o deambulador,  no interior do "teatro" a fingir, mostra alguns trabalhos produzidos ao longo de 28 anos de carreira. Não há originais, nem sequer preocupação com a mostra. A Folha de Sala procura dar-lhes "substância, mas cai na banalidade.  Esperava-se muito mais.

Coincidência ou não, a galeria Quadrum, mesmo ao lado, depois do empolgante discurso sobre cultura esvaziou-se. Promete no final do mês de Fevereiro uma exposição de Alice Geirinhas - Existem Pedras nos Olhos. Um excelente título.

Continua